sexta-feira, 10 de abril de 2009

Parei, como se estivesse incorporado, e percebi as pessoas no ponto de ônibus escutando a conversa. Aquele papo não deveria interessar ninguém. Era meu e de minha amada! Somente nosso. O mais interessante era que, em meio aquela multidão de desconhecidos, sentia existir somente duas pessoas de verdade. O restante eram rostos sem forma alguma, ávidos para que acontecesse uma briga séria.
Que loucura! Estamos discutindo nossa relação em plena Central do Brasil, disse.
Continue! Os camelôs e transeuntes não nos conhecem e esse forró altíssimo não permite que eles entendam muita coisa.
Sei! Mas vamos sair daqui. Esse ambiente não é propício para uma conversa a dois.
Você vai continuar ou não? Espero meses para que digas realmente o que sentes e pensas, e agora você cisma com a Central. Vê se pode?

TALITA

Ah! Talita, Talita, Talita... Eu quero mais é que suas palavras dissimuladas se explodam no universo do seu mundinho!

MUITAS COISAS

- Sabe, não tenho tempo a perder. Preciso viver muitas coisas ainda. Preciso comprar minha casa. Preciso decorar minha casa. Preciso fazer uma plantação no meu quintal. Preciso criar galinhas. Preciso enxergar o crescimento da mangueira no quintal. Preciso fazer amor com amor. Preciso ensinar meu filho jogar bola. Preciso ganhar mais dinheiro. Preciso andar de carro zero. Preciso tomar café na varanda da casa lendo jornal num domingo de manhã. Preciso ouvir que sou o cara dos lábios de uma mulher. Preciso lançar um livro. Preciso ser entrevistado pelo Jô. Preciso comer aipim frito com manteiga de garrafa todos os fins de semana. Eu preciso dar um beijo de quatro horas. Eu preciso pintar minha casa. Eu preciso ouvir da minha mulher que não sei consertar nada. Eu preciso dançar juntinho “Bem que se quis” depois de fazer as pazes. Eu preciso comer todos os pratos da comida mineira. Eu preciso usar as mesmas roupas que meu filho. Eu preciso ver o Vasco penta campeão brasileiro. Eu preciso dormir e saber que no outro dia vou ter muito trabalho no serviço. Eu preciso não ser traído na primeira, segunda, centésima, milésima oportunidade. Eu preciso ver o sol amanhecer com uma mulher legal. Eu preciso receber visitas. Eu preciso visitar amigos. Eu preciso precisar sempre. Eu preciso ouvir a batida do coração... Eu preciso dar flores. Eu preciso dormir.

A FUGA

- E você quer que eu faça o quê, meu amor?
- Fuja comigo. Eu, você e as crianças que faremos.
- Pirou? Não temos nada. Vamos viver de quê?
- Não importa! Tenho duas passagens para Brasília.

SOMOS

Às vezes, tenho a nítida impressão que muitas coisas que vivemos são mecânicas. Sinto que nascemos, crescemos, trabalhamos, reproduzimos e morremos, como se fosse realmente isso nossa missão. Esquecemos que amamos, odiamos, detestamos, nos apaixonamos, sentimos saudades, esquecemos da outra pessoa como se esquece do almoço do dia passado, conseguimos amigos fiéis, infiéis, traímos, somos traídos, comemos jamelão, nos angustiamos, nos alegramos, beijamos, somos beijados, nos beijamos, declaramos amor, nos declamam poesias, recebemos bilhetes amorosos, damos flores, somos safados, queremos ser santos, nos convertemos, esquecemos nossos passados absurdos, torcemos por algum time, detestamos algum time (de preferência rubro-negro), ouvimos rádio, dançamos ao som das músicas mais bobas, declaramos guerra ao Latino, assistimos filmes americanos, desejamos filmes nacionais, bebemos vinho em adegas, comemos bacalhau, detestamos o Eurico Miranda, sabemos que Garrincha é rei, somos lindos, nos achamos feios, lavamos roupas, deixamos roupas jogadas no banheiro, gostamos de samba, dizemos que somos eruditos, somos História, vivemos pré-história, somos brasileiros, queremos ser estrangeiros, não desistimos nunca, na primeira oportunidade desistimos, amamos as praias do Nordeste, freqüentamos Ipanema e Arpoador, dormimos cedo demais, assistimos Jô todas as noites, recebemos e-mail´s, encaminhamos e-mail´s, dormimos com ventiladores barulhentos ligados, reclamamos dos mosquitos, vamos dormir com roupas furadas, queremos ser chiques até mesmo dormindo, escola de samba é verde e branco de Ramos, escola de samba é azul e branco de Madureira. Participamos de muitas coisas que traspassam a coerência do nascer, crescer, trabalhar, reproduzir e morrer.

- O que precisamos é aprender a nos adequar às mudanças, aceitar a nova realidade e tentar fazer com que cada momento seja especial. O que sentimos um pelo outro hoje, é especial. Amanhã ainda será? Só nos resta desejar que sim. Se é verdade que colhemos o que plantamos, vamos trabalhar duro no plantio das sementes e esperar que a natureza faça sua parte.
- Você está dando-me um fora?
- A minha resposta no momento é uma pergunta: “Será que vale a pena?” Estar longe de casa. Abrir mão do colo da mãe. Dispensar os paparicos do pai. Adiar as trocas de confidências com a irmã. Viver fazendo contas e chegar à conclusão de que – mais uma vez – o dinheiro não vai dar... E a lista poderia ser muito maior! Mas a pergunta que não pode calar é : será que vale a pena?
- ...

...

- Não quero ser injusta e coloco no outro prato da balança as vantagens ou compensações, mas parece perseguição! A balança não funciona!
- A melancolia que existe no esperar, no apegar, reflete o fosco de muitas cores que gostariam de ser vivas. A imagem projetada na miragem dos sonhos inacabáveis demonstram com exatidão indecifrável do quanto não se deve dedicar-se a quem não se dedica por você.
- Eu dedico-me muito à você, sim, seu ingrato. Você sabe disso! Mas para você tudo é muito simples. Sou mulher! Não posso decidir nada assim. Um homem pode sair e voltar de casa quando quiser. Me compreenda, estou confusa. Minha cabeça está cheia de interrogações, exclamações e muitas, muitas reticências...